Pesquisa comparou dados entre 2010 e 2018 com os últimos quatro anos

Mudanças nas políticas de proteção ambiental afetaram o aumento na emissão de carbono na Amazônia nos últimos dez anos. É o que diz um estudo realizado em parceria da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) com outras instituições de pesquisa brasileiras e internacionais, publicado neste semestre na revista Nature.

A pesquisa se baseou em aferições da quantidade de carbono na atmosfera da região, além de dados sobre queimadas, desmatamentos, venda de madeira bruta, área cultivada de soja e cabeças de gado na região e autos de infração de atividades ilegais de desmatamento. Os dados se referem aos períodos entre 2010 e 2018 em comparação com 2019 e 2020. O professor Sérgio Machado Corrêa, do Departamento de Química e Ambiental da Faculdade de Tecnologia (FAT) da Uerj, em Resende, é um dos autores do artigo e possui um projeto em andamento sobre o tema. Ele explica que é uma pesquisa de longo prazo, com a coleta de dados iniciada em 2010.

“Alguns anos são atípicos, em especial aqueles com o fenômeno El Niño. Mas nos últimos quatro anos, a emissão de carbono aumentou mais em relação ao período anterior”, afirma Corrêa. Ele explica que essa diferença motivou a equipe a investigar as razões por trás desse aumento. Entre os achados, identificaram, a partir de dados disponíveis em páginas do governo, que o número de multas aplicadas e pagas reduziu muito. Além disso, o plantio de soja e a criação de gado cresceu na Amazônia, enquanto reduziu no resto do país.

“No passado diziam que a Amazônia era o pulmão do mundo. Hoje entendemos que não é mais, nem em termos de produção de oxigênio nem em termos de sequestro de carbono. A floresta na época úmida consegue sequestrar carbono, mas na seca ela emite e o balanço é zero”, avalia o professor.

Segundo Corrêa, a cada 15 dias um avião mono ou bimotor sobe até cerca de cinco mil metros em quatro locais da Amazônia – Santarém (PA), Alta Floresta (MT), Rio Branco (AC), Tabatinga (AM) ou Tefé (AM). No interior da aeronave, um dispositivo automatizado e equipado com frascos de coletas de gases abre a cada 400 metros e mede a pressão, a temperatura, a altitude e os dados de longitude e latitude. Em laboratório, a equipe analisa os gases de efeito estufa (CO2, CH4, N2O) e também CO que é um indicativo de queimada. As análises químicas são realizadas por métodos cromatográficos e espectrofotométricos. “A cada voo, temos as concentrações dos gases em cada altitude – o que chamamos de perfil vertical dos gases. Se o carbono aumenta conforme o avião desce, é sinal que a floresta está emitindo carbono. Se diminui, ele está sendo absorvido pela floresta”, explica.

De acordo com o pesquisador, a região funciona como caixa d’água do Brasil e um regulador do clima global, pois a floresta tem um papel essencial no ciclo da água através dos chamados rios voadores – a água evapora no Atlântico e os ventos de leste para o oeste trazem para a Amazônia, uma parte é retida nas árvores e outra condensa nos Andes e escorre pelos rios até a bacia amazônica. As árvores realizam, então, a evapotranspiração para a atmosfera, e essa água vai cair no cerrado que é nascente da maioria dos rios que chegam ao sul-sudeste.
O estudo contou com a participação de pesquisadores de diversas instituições como o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), a Universidade de São Paulo (USP), a NOAA (National Oceanic and Atmospheric Agency), entre outras.

Fonte:

Sérgio Machado Corrêa – professor do Departamento de Química e Ambiental da Faculdade de Tecnologia (FAT) da Uerj.