O Dia Nacional da Mata Atlântica é celebrado no dia 27 de maio e estudos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), apoiados na bioacústica, vêm contribuindo para uma melhor compreensão sobre o bioma. O Laboratório de Ecologia de Aves e Comportamento da Uerj desenvolve investigações sobre ecossistemas com base em gravações de áudio, que buscam entender a importância das vocalizações para variadas espécies.
O Parque Nacional da Tijuca é uma das áreas em que são feitos registros em áudio pelo Laboratório. A depender daquilo que se quer saber, gravadores autônomos apropriados são posicionados e programados para captação dos sons. Os estudos revelam que ruídos ocasionados pela ação humana vêm interferindo na possibilidade de comunicação entre os animais, sobretudo as aves.
Sons de helicópteros e aviões, do trânsito e até de tiroteios foram registrados e apontam para uma realidade preocupante. O principal impacto da introdução desses sons na Mata Atlântica é o mascaramento de sua paisagem sonora. É o que aponta a professora Maria Alice Alves, do Instituto de Biologia Roberto Alcantara Gomes (Ibrag) da Uerj.
“Esses ruídos antrópicos podem ser muito intensos e ocupar uma faixa de frequência tão grande que acabam impedindo a comunicação entre as aves”, explica a pesquisadora. Com isso, elas acabam mudando os horários das vocalizações e passam a ter mais dificuldade para performar rituais essenciais para sua preservação, como o próprio acasalamento.
A pesquisadora adverte para o fenômeno de silenciamento das florestas e que pode comprometer atividades humanas. “As aves são fundamentais para controle de pragas, insetos, polinização e frugivoria, dispersão de sementes. Estes são importantes serviços ecossistêmicos”, explica. Ela cita até o bem-estar mental que a diversidade de cantos dos animais pode proporcionar aos seres humanos e conclui, “a Mata Atlântica é uma orquestra particular, pois abriga uma diversidade imensa de espécies endêmicas, então você vai ter uma sinfonia especial”.
As análises dos registros da Floresta da Tijuca têm sido divulgados pelo Laboratório nos últimos anos. Em 2022, o grupo publicou um artigo na revista Biological Invasions (Springer), que trata dos impactos dos saguis na dinâmica sonora da Floresta. Em 2023, um trabalho apresentado no II Ornithological Congress of the Americas apontou os impactos das ações antrópicas no território.
Fonte para entrevistas:
Profa. Dra. Maria Alice dos Santos Alves, do Departamento de Ecologia da Uerj